No conto infantil dos irmãos Grimm, Rapunzel joga seu longo cabelo através da janela de uma torre para que um príncipe possa subir por ele e resgatá-la. Com o nome baseado neste conto, a Síndrome de Rapunzel é uma condição médica extremamente rara no qual os cabelos que a pessoa comeu se tornam emaranhados e presos em seu estômago. Isto causa uma tricobezoar (bola de cabelo), que tem uma longa cauda estendendo-se ao intestino delgado.
Recentemente, uma mulher de 38 anos de idade tinha uma bola de cabelo de 15 x 10 cm cirurgicamente removida de seu estômago e uma bola de cabelo de 4 x 3 cm removida do topo de seu intestino delgado. Este caso, publicado na revista cientifica BMJ Case Reports, marca o caso número 89 publicado da Síndrome de Rapunzel na literatura médica.
Assim como 85 a 95% de pacientes com Síndrome de Rapunzel, a mulher apresentou-se ao seu médico com dores abdominais, náusea e vômito. Outros sintomas da síndrome de Rapunzel incluem um estômago inchado, apetite reduzido, perda de peso e constipação ou diarréia. Em alguns casos, o intestino está perfurado, que pode levar a sépsis (infecção do sangue). Morte tem ocorrido em 4% dos casos.
Os autores da revisão da BMJ Case Reports encontraram que cerca de 70% dos pacientes com a Síndrome de Rapunzel eram do sexo feminino e na faixa etária mais jovem do que 20 anos. As pacientes mais jovens relatadas eram crianças (de 2 a 5 anos) enquanto que a paciente mais velha tinha 55 anos de idade. Felizmente, esta mulher teve uma recuperação bem-sucedida. Mas é desconhecido o porque ela estava comendo seu próprio cabelo (e possivelmente de outras pessoas) ou por quanto tempo. Pode-se levar seis meses para uma bola de cabelo se desenvolver e há relatos de pessoas que lidaram com os perigosos sintomas da Síndrome de Rapunzel por 12 meses antes de buscar tratamento.
Acredita-se que mais pessoas do sexo feminino do que do masculino desenvolvem a Síndrome de Rapunzel porque os fios de cabelo delas são tipicamente mais longos e cabelos longos são mais propensos a ficarem presos nas camadas de membranas mucosas do estômago. Quando o cabelo é consumido e é incapaz de ser digerido, a bola de cabelo cresce maior.
Algumas pessoas com deficiência intelectual e certos transtornos psiquiátricos comem seu próprio cabelo – um comportamento chamado tricofagia. Acredita-se que estes grupos estão em risco elevado para desenvolver a Síndrome de Rapunzel.
Há dois específicos transtornos psiquiátricos que pessoas que comem seu próprio cabelo são propensas a ter: tricotilomania e pica.
Pessoas com tricotilomania sentem-se obrigadas a arrancar seu próprio cabelo, frequentemente ao ponto de uma visível perda de cabelo. É bastante comum pessoas então brincarem com os fios do cabelo removido. Por exemplo, mordiscar a raiz do cabelo ou colocar o cabelo em contato com a boca e os lábios para sentir-se relaxada.
Um estudo encontrou que 20% das pessoas com tricotilomania engajaram-se nestes comportamentos diariamente, incluindo, na verdade, engolir o cabelo. Um outro estudo encontrou que de 24 pessoas com tricotilomania, 25% tinham desenvolvido uma bola de cabelo no estômago porque comem o cabelo.
Pica vem da palavra latina para “magpie”, por causa dos hábitos alimentares incomuns do pássaro. O transtorno envolve desejo de comer substâncias que não são nutritivas e não são comidas, como argila, terra, papel, sabão, roupa, lã, pedras e cabelo.
Pica geralmente não é diagnosticada em bebês ou crianças pequenas por causa do contato com a boca (e acidentalmente ingestão) de substâncias não-comestíveis e é considerada bastante normal nesta idade. É muito comum em crianças, mulheres grávidas e em pessoas com deficiências intelectuais, tal como o transtorno do espectro do autismo.
Tem havido muitas teorias para explicar a tricofagia e a pica, tais como fome durante inanição ou negligencia na infância, como uma forma de lidar com o estresse e uma parte de práticas culturais. Por exemplo, em algumas regiões da India, África e os Estados Unidos, comer argila é considerado ter positivos benefícios espirituais ou para a saúde.
Ambas a tricofagia e a pica tem sido encontradas ocorrendo em pessoas com deficiência de ferro. Em alguns relatos de caso de Síndrome de Rapunzel, o hábito de arrancar o cabelo e comê-lo parou após a pessoa ser tratada para deficiência de ferro ou doença celíaca.
Doença celíaca causa dano ao intestino delgado, que leva a pouca absorção de nutriente. Cabelo contem traços de elementos de ferro e outros minerais, mas é ainda pouco claro se isto promove algum tipo de necessidade biológica para comer cabelo. Outros estudos de caso encontraram que um bloqueio causado pela bola de cabelo foi, na verdade, a raiz da causa da deficiência do ferro.
Na maioria dos casos, cirurgia foi requerida para remover a bola de cabelo inteira. É também possível dissolver a bola de cabelo com química: quebra-se em pedaços menores com um laser ou remove-lo via um tubo através da boca e que vai até o estômago, chamada endoscopia. Contudo, estes métodos são geralmente menos bem-sucedidos do que a cirurgia.
Tratamento psicológico é recomendado para prevenir o futuro comer cabelo compulsivo. Isto é especialmente importante para pacientes com tricotilomania ou pica relacionada ao estresse porque podem estar em risco de desenvolver a Síndrome de Rapunzel novamente.
Envolver pais e cônjuges em tratamento psicológico é importante pois assim eles podem aprender a apoiar a pessoa amada para parar o comportamento e também por causa do impacto que a Síndrome de Rapunzel pode estar causando para eles também.
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Este artigo foi escrito por Imogen Rehm, psicóloga e pesquisadora da Swinburne University of Technology e foi publicado na The Conversation.
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O post acima foi resultado de uma tradução livre do seguinte texto:
http://www.psypost.org/2016/10/rapunzel-syndrome-people-eat-hair-45558
