Autocompaixão Para quem Sofre de Dor Crônica

Uma pesquisa sugere que o desenvolvimento de uma atitude gentil, preocupada e acolhedora frente a si mesmo pode ajudar aqueles sofrendo com dor crônica. O estudo, publicado na revista científica Journal of Clinical Psychology, encontrou que pessoas com níveis mais altos de autocompaixão tendiam a ser mais capazes de “continuar com a questão de viver apesar de experienciar dor, que estava ligada a níveis mais baixos de sintomas depressivos: “este estudo, em particular, é parte de um estudo maior, que busca melhor entender o papel da autocompaixão e sua interação com outros processos psicológicos em dor crônica”, explicou o autor do estudo, Sérgio A. Carvalho, da Universidade de Coimbra, em Portugal.

“O interesse em autocompaixão no contexto de dor crônica tem crescido recentemente na psicologia clínica e comportamental. Há diversas razões para isso. A mais óbvia e, na verdade, não especifica para dor crônica, é que há crescente evidência que autocompaixão (como traço, assim como a prática mais formal dela) está associada com menos sofrimento psicológico (ou seja, menos ansiedade, menos depressão) e mais qualidade de vida”.

“É hipotetizado que tanto mindfulness quanto autocompaixão resultam em aceitação, mas autocompaixão adiciona a ela uma motivação para ação, uma motivação para aliviar o sofrimento de uma pessoa em uma forma gentil e suavizante, que mindfulness não necessariamente faz. Isto é bastante discutível e definitivamente um diálogo permanente”.

“Embora haja acumuladas pesquisas sugerindo que aceitar a dor é um relevante aspecto no manejo de dor crônica, a aceitação da dor é um aspecto cognitivo (disposição para experienciá-la) assim como um aspecto comportamental (continuar a agir como eu pretendia, apesar de experienciar dor). E isto seria uma oportunidade bastante apropriada para testar a hipótese de que autocompaixão, mas não mindfulness, é orientada comportamentalmente”.

O estudo, com uma amostra de 231 mulheres portuguesas com dor crônica musculoesquelética encontrou que tanto a atenção consciente quanto a autocompaixão estavam negativamente associadas com sintomas depressivos. Em outras palavras, mulheres mais que usavam mais o mindfulness e a autocompaixão tenderam a reportar níveis mais baixos de sintomas depressivos.

“Os resultados sugerem que ser capaz de ser gentil e acolhedor(a) em direção a si mesmo(a) — ao invés de ser duro(a), crítico(a), envergonhado(a), etc — quando enfrentam dificuldades, está relacionado a ter menos sintomas depressivos em dor crônica. Isto sugere que uma pessoa sofrendo de dor crônica pode muito bem beneficiar-se da prática de exercícios que aumentem a capacidade para ser gentil e acolhedora para lidar com as dificuldades de sua doença crônica”, disse Carvalho.

Mulheres que pontuaram alto na medida de  mindfulness discordaram de afirmações, tais como “eu acho difícil ficar focada no que está acontecendo no presente” e “eu me vejo fazendo coisas sem prestar atenção”, enquanto que aquelas que pontuaram alto na medida de autocompaixão concordaram com afirmações tais como: “eu tento ser compreensiva e paciente frente a estes aspectos de minha personalidade que eu não gosto” e “eu tento ver minhas falhas como parte da condição humana”.

Os pesquisadores encontraram que autocompaixão — mas não mindfulness — estava associada com estar disposta a engajar-se em atividades agregadoras apesar da dor, que por sua vez, estava associada com menos sintomas depressivos.

“Também, parece que o aspecto positivo da autocompaixão que relaciona-se com a pessoa ter menos  depressão tem a ver com a inclinação dela para a ação. Em outras palavras, parece que ser gentil consigo mesma em períodos conturbados pode levar a uma melhor capacidade para continuar a seguir adiante e engajar-se em atividades agregadoras, apesar da dor, que por sua vez, está relacionado a ter menos sintomas depressivos. Estas relações não foram influenciadas pelos níveis de intensidade de dor dos participantes, uma vez que isto foi controlado estatisticamente”, Carvalho explicou.

Mas o estudo — como todas as pesquisas — inclui algumas limitações: “é bastante importante ter em mente que estes resultados não são definitivos devido a metodologia usada. Nós temos que entender que quando se conduz uma pesquisa psicológica através de auto-relato, nossa pesquisa é tão boa quanto nossos instrumentos. E ainda há  discussões em curso acerca da medida de mindfulness e autocompaixão, em parte (mas não apenas) por causa da conceitualização destes fenômenos que estão ainda em desenvolvimento”, Carvalho disse.

“Quanto ao nosso estudo em particular, nós usamos um instrumento para medir mindfulness que é, na verdade, medida de um aspecto bastante especifico de  mindfulness: atenção consciente. Contudo, mindfulness pode ser conceitualizado de uma forma muito maior, incluindo diferentes domínios que vão além de processos atencionais (por exemplo, não-reatividade, não-julgamento).”

“Também, este é um desenho transversal padrão, então é impróprio pegar estes resultados e extrair relações causais entre variáveis. Nós demos uma pequena contribuição para entender estas relações, mas há questões que ainda precisam ser respondidas. Nós precisamos melhor entender sobre os fundamentos fisiológicos da autocompaixão pois parece haver um crescente interesse na relação entre autocompaixão e atividade parassimpática”, Carvalho continuou.

“Além disso, há ainda uma ausência de pesquisa de alta qualidade em intervenções psicológicas baseadas na compaixão para manejo de dor cronica,  particularmente em ensaios clínicos randomizados. Assim, há ainda muito para aprender sobre autocompaixão na dor crônica. Mas as pesquisas já publicadas são encorajadoras”.

“Esta pesquisa é parte dos meus estudos do doutorado e nós começaremos nosso ensaio clínico do grupo de intervenção baseado em mindfulness e em compaixão para mulheres com dor crônica em janeiro de 2019. Se os leitores estiverem interessados nesta linha de pesquisa, por favor, visitem o nosso website: (https://cineicc.uc.pt), onde pode-se encontrar todas as pesquisas realizadas pela nossa equipe e por colegas”, Carvalho adicionou.

O estudo, “Mindfulness, selfcompassion, and depressive symptoms in chronic pain: The role of pain acceptance“, foi autoradio por Sérgio A. Carvalho, David Gillanders, Lara Palmeira, José Pinto‐Gouveia e Paula Castilho.

 

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Texto originalmente publicado em inglês, no Psypost:

https://www.psypost.org/2018/12/self-compassion-in-chronic-pain-sufferers-linked-to-a-better-capacity-to-continue-engaging-in-valued-activities-52775