Pessoas estão frequentemente perdoadas para ações que elas originalmente nunca teriam permissão para fazer – um fenômeno descrito como “Lei da Retroatividade de Stuart”. Crianças que assistem TV por mais tempo do que são permitidas, adolescentes que fogem sem dizer aos seus pais, e adultos que esvaziam contas de banco conjuntas sem informar o cônjuge, todos parecem ter um sentido intuitivo para captar isto.
Mas embora possa soar como uma inocente peculiaridade psicológica do qual nós não podemos fazer nada sobre ela, é na verdade algo que está tendo sérias consequências em áreas variando de relacionamentos, política, ao sistema judiciário. Então o que está causando e podemos fazer alguma coisa sobre isso? Vamos dar uma olhada na ciência.
Esta noção foi recentemente testada em uma série de estudos pelo psicólogo Eugene Caruso. Ele deu para adultos estórias descrevendo dois eventos idênticos – um que ocorreu em algum ponto no futuro e um que ocorreu em uma quantidade de tempo equivalente no passado. Ele então pediu aos participantes para julgarem o quão anti-ético, deliberado ou merecedor de elogio ou culpa eles pensavam que estes eventos eram.
Um dos cenários hipotéticos foi que a Coca-Cola estava desenvolvendo uma nova máquina automática de venda de refrigerantes. A máquina foi projetada para mudar o preço das bebidas dependendo da temperatura do lado de fora dela – em dias mais quentes ela automaticamente aumentaria os preços. Foi dito para a metade dos participantes que a máquina foi testada no último mês, para a outra metade que ela será testada todos os meses. Caruso encontrou que participantes sentiram que a máquina de venda de refrigerante foi consideravelmente menos justa se estava prestes a ser testada no futuro.
Em um outro experimento, ele mostrou que nossos viéses frente a eventos futuros não estão limitados a comportamentos negativos. Quando lendo sobre um homem rico que decidiu fazer uma doação anônima para uma instituição de caridade no valor de US$5,000, participantes viram a contribuição dele como mais generosa quando ela seria realizada no futuro do que quando tinha sido realizada no passado.
Em geral, estes estudos mostraram que pessoas julgaram transgressões mais duramente e boas ações mais positivamente se eles acreditam que os eventos ocorreriam no futuro do que se eles já tivessem ocorrido.
Mas uma importante questão permanece. Por que nós fazemos isso? A pesquisa sugere que pessoas recorrem a suas emoções quando fizerem julgamentos de justiça e moralidade. Quando emoções estão elevadas, os julgamentos são mais extremos do que quando reações estão fracas. Um experimento no qual pessoas que imaginaram sendo jurados mostrou, por exemplo, que quanto mais ultrajante eram as ações do réu, maior a probabilidade deles para propor penas severas. Por outro lado, alguém com uma capacidade comprometida para experienciar emoção, um psicopata, por exemplo, é menos provável reconhecer infrações morais.
Caruso argumenta que seus resultados podem, pelo menos em parte, serem explicados pela diferença em respostas emocionais para eventos futuros e passados. Pessoas tendem a relatar reações mais intensas para o mesmo evento quando imaginam experienciando-a no futuro do que quando lembram de tê-la experienciado no passado. Isto tem sido mostrado por considerar um feriado, um ciclo menstrual ou estar sujeito a um barulho desagradável.
Isto pode parcialmente ser porque o futuro é normalmente mais controlável do que o passado. De uma perspectiva evolucionária, entusiasmo pode ser benéfico à medida em que pode normalmente ajudar-nos a lidar com uma ameaça iminente, tal como escapar de um incêndio. O futuro é também geralmente mais incerto do que o passado – e incerteza pode intensificar o aborrecimento de um evento negativo.
Quaisquer que sejam as razões, os estudos sugerem que pode haver algumas implicações bastante sérias. Em um dos estudos de Caruso, os participantes que imaginaram sendo jurados em um julgamento civil, concederam mais dinheiro para a vítima de um acidente que iria sofrer por seis meses do que a pessoa que tinha sofrido nos últimos seis meses. Se crimes passados são vistos como menos severos do que crimes futuros, então injustiças passadas serão respondidas com punição menos severa do que as equivalentes no futuro.
Aqueles buscando minimizar as repercussões de suas ações podem tirar vantagem disto. Por exemplo, um governo buscando implementar uma técnica de vigilância eticamente questionável pode escolher simplesmente seguir me frente com ela sem uma consulta pública e lidar com as consequências mais tarde.
Mas as notícias não são de todo ruins. Estar atento a esta diferença fundamental entre julgamentos dos eventos do passado e futuro pode nos ajudar a nos tornarmos juízes mais consistentes de comportamento moral. Uma coisa que realmente sabemos é que este viés pode não estar presente em crianças pequenas, que são mais imediatistas em suas tomadas de decisão do que os adultos. Nossos viéses em relação ao futuro emergem à medida em que nós ficamos mais velhos? Ele pode ser ensinado? Talvez se nós pudéssemos descobrir a resposta para essa questão, seriamos capazes de construir um mundo onde crimes seriam julgados independentemente de sua localização no tempo.
Escrito por Agnieszka Jaroslawska, da Queen’s University Belfast. Este artigo foi originalmente publicado na The Conversation.
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O post acima foi resultado de uma tradução livre do seguinte texto:
