Por que Estamos nos Tornando tão Narcisistas?

O tema narcisismo tem intrigado as pessoas por  séculos, mas cientistas sociais agora alegam que ele se tornou uma moderna “epidemia”. Então, o que é que levou ao seu aumento e há alguma coisa que nós possamos fazer sobre isso?

O termo narcisismo originou-se há mais de 2,000 anos atrás, quando Ovídio escreveu a lenda de Narciso. Ela conta a história de um lindo caçador grego que, um dia, sem querer, vê o seu reflexo em uma piscina de água e fica perdidamente apaixonado por ela. Ele se torna obcecado pela sua beleza e é incapaz de sair de perto de sua imagem refletida na água até ele morrer. Após a sua morte, a flor narciso cresceu onde ele jaz.

O conceito de narcisismo foi popularizado pelo psicanalista Sigmund Freud, através do seu trabalho com o ego e seu relacionamento com o mundo exterior; este trabalho tornou-se o ponto de partida para muitas outras teorias em narcisismo.

O narcisismo repousa em um continuum de saudável ao patológico. O narcisismo saudável é parte do funcionamento humano normal. Ele pode representar o amor-próprio saudável e confiante que está baseado em verdadeira conquista, a habilidade para superar contratempos e provém do apoio necessário de laços sociais.

Mas o narcisismo se torna um problema quando os indivíduos começam a se preocupar com o eu, tendo a necessidade de excessiva admiração e aprovação de outros, embora mostrando  desconsideração pelas susceptibilidades de outras pessoas. Se o narcisista não recebe a atenção desejada, ele pode desenvolver abuso de substância e transtorno de depressão maior.

Narcisistas frequentemente retratam uma imagem de grandiosidade ou excesso de confiança para o mundo, mas isto é apenas para cobrir sentimentos profundos de insegurança e uma auto-estima frágil que é facilmente ferido pela crítica mais mínima. Por causa destes traços, os narcisistas encontram-se em relacionamentos superficiais que apenas servem para satisfazer sua constante necessidade por atenção. Quando traços narcisistas se tornam tão acentuados que eles resultam em comprometimento, isto pode indicar a presença de transtorno de personalidade narcisista.

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) descreve o transtorno de personalidade narcisista como “um padrão generalizado de grandiosidade, necessidade por admiração e ausência de empatia que começa no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos”. Pessoas com transtorno de personalidade narcisista apresentam um grandioso senso de auto-importância, estão consumidos por fantasias de sucesso ilimitado, poder, brilho, beleza ou amor ideal e são extremamente sensíveis ao criticismo, entre outras coisas.

Pessoas mais jovens e homens parecem ser os mais afetados. As causas exatas do transtorno de personalidade narcisista são desconhecidos, mas abuso e negligência na infância podem ser possíveis fatores envolvidos em sua formação.

Em um setting clínico, aproximadamente de 2% a 16% das pessoas sofrem deste transtorno, enquanto que na população em geral, menos de 1% das pessoas são afetadas. Alguns sugerem que o transtorno de personalidade narcisista é bastante raro, mas estimativas de estudos variam enormemente dependendo do tamanho da amostra e as formas que os traços de narcisismo são avaliados.

Outros tem rotulado o narcisimo como uma “epidemia moderna”, apontando para a rápida mudança na sociedade que ocorreu no período industrial e pós-industrial como a causa. Nas duas últimas décadas, tem-se testemunhado uma mudança da sociedade de um comprometimento com o coletivo para um foco no individual ou no eu. O movimento de auto-estima foi um importante momento decisivo neste quesito. Ele determinou que a auto-estima era a chave para o sucesso na vida. Educadores e pais começaram a dizer para os seus filhos o quanto eles são especiais e únicos para fazê-los sentirem-se mais confiantes. Pais tentaram “conferir” auto-estima em seus filhos ao invés de deixarem-os alcançar isso através de trabalho árduo.

O aumento do individualismo (com o seu foco no eu e nos sentimentos internos) e o declínio em normas sociais que acompanharam a modernização da sociedade também significaram que a comunidade e a família não eram mais capazes de oferecer o mesmo apoio para os indivíduos como já tinham feito. E pesquisas tem mostrado que estando integrado em redes sociais – por exemplo, estando ativamente engajado em sua comunidade e conectado com amigos e família – tem maiores benefícios na saúde.

Uma vez que a estrutura social deteriorou-se, tornou-se muito mais difícil cumprir com as necessidades básicas para conexões significativas. A questão mudou-se do que é o melhor para outras pessoas e para a família para o que é melhor para mim. A modernização da sociedade pareceu valorizar fama, riqueza e celebridades antes de tudo. Tudo isso, combinado com a desagregação em laços sociais  criaram um “eu vazio, privado de significado social”.

O crescimento em tecnologia e o desenvolvimento de sites de redes sociais extremamente populares, tal como Facebook, mudou-se mais a forma como nós gastamos o nosso tempo livre e a comunicação. Hoje, há aproximadamente 936 milhões de usuários ativos do facebook diariamente em todo o mundo. O vício da Internet é uma nova área de estudo em saúde mental e recentes pesquisas transversais mostram que o vício em Facebook está fortemente ligado a um comportamento narcisista e baixa auto-estima.

Tratamento para transtorno de personalidade narcisista existe e isto inclui farmacoterapia e psicoterapia.  Meditação tem sido também mostrada como tendo efeitos positivos em saúde mental. Pesquisa adicional, contudo, é necessária para testar a efetividade de vários tratamentos .

Então o que podemos fazer sobre tudo isto e como nós podemos levar uma vida feliz e com um propósito? Um dos maiores estudos em felicidade foi conduzido por um grupo de pesquisadores da Harvard que acompanharam um grande estudo de coorte, de pessoas durante um período de 75 anos. O que eles descobriram – como já esperado – foi que a fama e o dinheiro não eram os segredos para a felicidade. Ao invés disso, a coisa mais importante na vida e o maior indicador de satisfação era ter relacionamentos fortes e acolhedores – essencialmente, que “a jornada de imaturidade para a maturidade é uma espécie de movimento do narcisismo para conexão”.

Então talvez seja a hora de dar um tempo daquele smartphone, desligar o seu computador e encontrar-se com um ou dois amigos. Talvez, apenas talvez, você possa sentir-se um pouco melhor – e aumentar sua auto-estima.The Conversation

Texto escrito por Olivia Remes, da University of Cambridge. Esse artigo foi originalmente publicado no The Conversation.

http://www.facebook.com/cristianepassarela

O post acima foi resultado de uma tradução livre do seguinte texto:

Why are we becoming so narcissistic? Here’s the science

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