A eletroconvulsoterapia (mais conhecida como eletrochoque) é um tratamento que, apesar de muitos dizerem estar em DESUSO, tem se mostrado eficaz para certos casos – inclusive com publicações cientificas mostrando o efeito da ECT no tratamento do paciente.
Conheci este tipo de tratamento em 2001, quando na época, trabalhava em uma enfermaria de psiquiatria dentro de um Hospital Geral em SP. Eu era recém-formada e minha atuação como psicóloga fazia parte do programa da minha especialização em Psicologia da Saúde. Nessa época, eu fazia parte de uma equipe multidisciplinar, que contava com a presença de uma psiquiatra e outros profissionais de saúde mental (como Terapeutas Ocupacionais e Assistentes Sociais).
Ainda me recordo de ter ouvido, durante uma discussão de caso, o termo ECT, que foi a proposta da equipe para o tratamento de uma de nossas pacientes, uma senhora que apresentava depressão grave e que não apresentava melhora com o uso de antidepressivos. Não vou mentir que arregalei os olhos e pensei: “ELETROCHOQUE?!”, mas logo me acalmei quando me foi explicado todo o procedimento e de quais eram os resultados esperados a partir dele. Durante a minha fase de estudante de psicologia, já havia ouvido muitos relatos de pacientes que haviam sido tratados com eletrochoques e que tinham TRAUMA disso.
A eletroconvulsoterapia é um tipo de tratamento no qual, através de um estímulo elétrico (produzido pela máquina de ECT) gera uma convulsão no paciente e, é isso que faz com que o paciente melhore.
Participei (como OBSERVADORA) de algumas sessões, já que esse procedimento só pode ser realizado por um psiquiatra acompanhado de um anestesista (o paciente recebe anestesia geral e precisa ser monitorado). O paciente é submetido a vários exames antes desse tratamento e deve assinar um termo de consentimento, já que existe o risco da anestesia geral, que é o mesmo risco que qualquer paciente que vá se submeter a uma cirurgia terá, que é por volta de 0,05%. Então, podemos afirmar que o tratamento de eletroconvulsoterapia é bastante seguro.
As sessões costumavam acontecer três vezes por semana e, o tratamento era composto de 8 a 12 sessões, dependendo do caso (a grande maioria recebia 12 sessões). Desde a preparação (anestesia, etc.) até o final do procedimento, a duração era de 20 a 30 minutos. A paciente estava deitada, anestesiada, recebendo oxigênio e seu coração sendo monitorado. Ah, esse detalhe é muito importante: todas as pacientes recebiam relaxante muscular (o que já não acontecia nos procedimentos no passado nos hospitais psiquiátricos). Os choques que a paciente recebia vinham de dois eletrodos que eram colocados na cabeça (na parte frontal do crânio – um eletrodo de cada lado) e, através desse choque a paciente convulsionava. Nós não víamos a convulsão e nem a paciente se mexer. Ou melhor, você via um pequeno movimento no braço esquerdo o que significava que ela havia convulsionado. O choque dura segundos (se eu não me engano 11 segundos) e são dados 3 choques. A idéia dessa cena é a seguinte: é como se estivéssemos vendo alguém dormir e mexer ligeiramente o braço. E SÓ! Nada daquele show de horror que costumamos ver em filmes. Logo após o procedimento, o paciente ficava alguns minutos ainda no centro cirúrgico até poder retornar para a enfermaria de psiquiatria.
Algumas vezes, a paciente voltava para a enfermaria um pouco confusa, mas o quadro melhorava no decorrer do dia. Elas não lembravam do momento em que recebiam o choque, pois estavam anestesiadas. Ou seja, não é um tipo de tratamento que vai causar trauma, como acontecia no passado, onde o eletrochoque era utilizado como forma de castigo/punição, “à sangue frio”, como alguns pacientes falavam. A ação esperada desse tratamento é a mesma que se esperaria, por exemplo, de um antidepressivo agindo em um paciente deprimido.
Aí vocês podem me perguntar: e quando é que é indicado este tipo de tratamento?
Ele NÃO é indicado para todos os tipos de pacientes.
A sua indicação é principalmente para:
- Pacientes que apresentam risco alto de suicídio e que não poderiam esperar pelo tempo de início de ação do antidepressivo, que é por volta de 2 semanas.
- Paciente com depressão grave e o psiquiatra não pode aumentar mais a dose da medicação por conta dos efeitos colaterais.
- Paciente não melhora o seu quadro depressivo, apesar do psiquiatra já ter tentado usar todos os tipos de antidepressivos disponíveis no mercado.
- Paciente está GRÁVIDA e não pode fazer uso de altas doses de medicação. Eu sei que muita gente pode duvidar, mas as pesquisas indicam que a eletroconvulsoterapia é o tratamento mais seguro para esse período, não ocorrendo nenhum dano ao bebê e pode ser administrado em qualquer fase da gravidez. Claro que a anestesia que a gestante recebe não é igual ao que as não-gestantes recebem, mas ainda sim, o tratamento é eficaz e não é danoso nem a vida dela e nem a do bebê.
- Pacientes idosos que apresentam problemas de interações medicamentosas, ou seja, precisa tratar a depressão, mas não pode tomar antidepressivo por causa da interação com as outras medicações que toma, ou mesmo fica restrito a apenas um tipo de antidepressivo e ele não produz o efeito desejado para este tipo de paciente.
Eu presenciei a melhora significativa desses pacientes que se submeteram a este tipo de tratamento e, posso afirmar, com todas as letras, que este tipo de tratamento é SEGURO e EFICAZ. Me lembro de uma paciente MUITO deprimida e, que na segunda semana, já parecia outra pessoa (depois de apenas 6 sessões, num regime de 3 sessões semanais).
Eu sei que nós psicólogos não podemos realizar este tipo de procedimento, mas devemos estar ABERTOS para ele, já que o nosso objetivo é o BEM-ESTAR de nosso paciente. Caso haja indicação para este tipo de procedimento, porque não sugeri-lo ao paciente e, pedir para que ele comente com o seu psiquiatra sobre a possibilidade (ou não) do uso de tal intervenção.
Espero que o relato da minha experiência com a eletroconvulsoterapia possa servir de informação, além de diminuir o preconceito que algumas pessoas apresentam frente à este procedimento.
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